julho 02, 2012

Olhares além do próprio umbigo

Por Paulo Yokota

Jornal Valor Econômico

É compreensível que nos preocupemos com as coisas que nos cercam, quando se vive num país continental da dimensão brasileira. Mas, o mundo globalizou e vivemos todos numa aldeia, com a internet nos transmitindo o que ocorre no globo.

Precisamos julgar os nossos problemas comparativamente, até para que não tenhamos um sentimento de vítimas isoladas. Existem economias que enfrentam questões graves e outros que os estão superando de forma adequada, dentro das limitações que diferem cada caso. Não só os problemas econômicos, mas sociais, condicionadas pelas histórias e culturas, dentro do quadro político em que estão inseridos.

Dois artigos ajudam a pensar esses problemas. Um do R. Daniel Kelemen, diretor do Centro para Estudos Europeus da Universidade Rutgers. Ele se encontra no site do Foreign Affairs, com o título "O Novo Normal da Europa", mostrando que vivemos na atual situação instável. Sua leitura seria recomendável, pois contem detalhes importantes.

Kelemen mostra que os problemas atuais, como o da Grécia, não podem ser resolvidos rapidamente. Ele entende que a Europa não está na beira do colapso, manter-se-a unida, mas a sua recuperação exigirá muito tempo, tanto com a saída da Grécia do euro, como se ela receber ajuda e permanecer. Alguns economistas entendem que a periferia da Europa poderia abandonar o euro e a opinião do autor é que esta opção seria um suicídio, provocando um colapso no sistema bancário e todas as suas consequências.

Ele entende que os problemas dos países do sul da Europa são estruturais e antecedem a criação do euro. A Alemanha foi a principal beneficiária da criação da moeda comum e seria arrasada com a sua eliminação com a extensão dos seus relacionamentos. Reformas poderiam melhorar a situação, mas nenhuma seria uma panaceia.

O problema é a massiva acumulação de dívidas dos países periféricos que foram aumentados com os créditos da década passada. Volume tremendo de capitais foi transferido para países como a Grécia, Irlanda, Portugal e Espanha. Ele gerou o crescimento desses países e elevaram os seus salários deixando-os sem competitividade e com débitos monstruosos. As insolvências se tornaram os "novos normais".

A adequada governança veio sendo tentada por diversas formas. Qualquer união monetária em que os países mantêm a autonomia de tributação, dispêndios e contração de empréstimos são problemáticos, e foram tentadas as regulamentações, como parte do Tratado de Maastrich. Nunca foi obedecido, e chegaram ao Mecanismo Europeu de Estabilidade, que foi assinado por 25 países, mas já foi flexibilizado para ajudar a Grécia.

Outro problema estrutural é o Banco Central Europeu, proibido de adquirir qualquer débito dos países membros, mas ele está sendo obrigado a adquirirem bônus de diversos países. Segundo o autor, as atuais tentativas de austeridade dos alemães se aproximam das regras de governança desejáveis, e poderiam resultar em progressos lentos, mas se observa não serem aceitos nas eleições.

Outro artigo interessante é de Noeleen Heyzer, a secretária-executiva da Comissão Econômica e Social para Ásia e o Pacífico, entitulado "Economias asiáticas sob prova" no site do Project Syndicate, mostrando que atual situação "novo normal" de incertezas e volatilidades da economia global cria um turbulento ambiente externo para o crescimento da região Ásia-Pacífico em 2012. Os resultados na Ásia devem ser melhores que no resto do mundo. Seu artigo merece uma leitura atenta.

No artigo informa-se que eles estão conscientes dos impactos do "novo normal" da economia da região. Foram incluídos no relatório das Nações Unidas para 2012 para a Ásia e o Pacífico. Devem reduzir o crescimento de 2012 sobre o que foi obtido em 2011, pela elevação dos custos de capital como as perdas decorrentes das políticas monetárias e protecionistas de alguns países desenvolvidos. O crescimento da região continuará acima da média mundial, com ela continuando a ter papel de polo dinâmico da economia mundial. As relações Sul-Sul devem se estender reduzindo a dependência das economias desenvolvidas.

Na China e na Índia o crescimento continua alto e alguns outros países do sudeste asiático devem ajudar regionalmente, com redução da pressão inflacionária. Uma desordenada solução para os riscos dos países europeus é considerada como possibilidade, e pode afetar a região. Isso poderia reduzir em cerca de 10% suas exportações anuais, com perda de cerca de US$ 390 bilhões e impactaria em redução de 1,3% do crescimento regional em 2012, reduzindo em 22 milhões de habitantes que deixariam a faixa da pobreza absoluta.

A volatilidade dos preços das commodities e perda de sua tendência de longo prazo seria um risco. Isto está sendo considerado como "novo normal", exigindo que a economia regional se adapte a ela. Os países da região devem resistir à especialização em commodities. Eles necessitam da industrialização, diversificação e a criação de novas capacidades produtivas. Aspecto considerado como um passo do "shock-proofing" nas economias asiáticas é o problema da redução do desemprego e das desigualdades. Um processo de reequilíbrio apoiado no mercado interno precisa ser perseguido, segundo a autora. Também o equilíbrio entre o crescimento e as pressões inflacionárias, não somente com medidas monetárias como o controle dos fluxos de capital, nos débitos de curto prazo, além dos problemas de câmbio e desastres naturais que passam a ser considerados como do "novo normal". A autora considera que a atual crise de turbulência e incerteza está atingindo a Ásia num período do seu crescimento, permitindo que existam espaços para manobras fiscais, com o aumento da cooperação dentro da região.

Essas considerações mostram que muitas das preocupações brasileiras são comuns às de outros países. Como as autoridades brasileiras procuram se antecipar com medidas pontuais é desejável que elas estejam dentro de uma estratégia mais ampla, que precisa ser divulgada adequadamente, para o mercado interno como externo.

 



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janeiro 31, 2012

Suffer's greek continues

Eurozone debt markets continued to show signs of further stabilization as Greek/private sector bondholder (private sector investors or PSI) negotiations continued to stumble along with repeated promises that a deal was soon to be reached, possibly over this weekend. The debt swap deal is a prerequisite to Greece receiving the next EU/IMF aid installment and avoiding a disorderly default. The details of the debt swap deal are reported to be a haircut of around 70% on existing bond holdings and an average interest rate of around 3.75% on the new Greek debt.
The key to avoiding a default event and potential market disruption will be the degree of PSI participation and whether the swap can plausibly be called ‘voluntary.’ On that count, the outcome is significantly more questionable, as a participation rate of 90+% is likely needed to avoid triggering credit default swaps and unleashing another wave of banking sector losses. So the details will matter and if a deal is reached this weekend, depending on its terms, there could be a volatile Sunday open.
Government bond yields in Spain and Italy dropped back significantly as one sign of calmer investors, but Portuguese yields surged to record highs over 14%, suggesting Portugal will be the next target of market angst. To be sure, following a Greek debt deal, if there is one, markets may simply revert to longer term solvency concerns of the larger EU countries, in a buy the rumor/sell the fact-type reaction. After all, Greece was never the real threat to EU financial stability.
On that front, Monday’s EU summit is expected to ratify the fiscal compact on budget deficits and surveillance, which will lock EU countries into austerity for years to come. The typical pattern has been for EUR, and risk assets generally, to appreciate going into such meetings, only to then relapse as the summit’s outcomes are deemed insufficient to stem the crisis. I think we could be looking at a similar scenario yet again, as the fiscal pact does little to alter current debt burdens and consigns most EU members to weak growth. In response, EU leaders are pledging to also develop growth strategies at the summit, but I’m a little more than skeptical as fresh fiscal stimulus does not seem likely. We’ll have to see what they ultimately come up with, but I’m not optimistic and would not be surprised by another post-summit wave of disappointment.
Technically, EUR/USD has now reached back to a key resistance zone in the 1.3220-50 area, which I highlighted in last week’s update. 1.3220 was the breakdown level from last December and 1.3245/50 is 38.2% of the decline from roughly 1.4250-1.2620 since late October. However, positioning is still excessively short, with CFTC COTR data showing the largest net-short EUR futures position on record as of Jan. 24, so a further short-squeeze can’t be ruled out. While I favor using current EUR levels to establish shorts for a resumption of the move lower, I can’t exclude further gains, so I would exit on strength over 1.3320/30 broken trendline support turned resistance. EUR/USD looks set to close the week above the daily Ichimoku cloud base at 1.3186, potentially signaling a move to the top of the cloud at around 1.3600.

What the Fed said and didn’t say

The FOMC this past week delivered a bit of a surprise by indicating that rates would remain exceptionally low until late-2014, extending their prior timeframe from mid-2013. The Fed also lowered its 2012 GDP forecast to 2.2/2.7% from Nov.’s forecast of 2.5/2.9%, and noted that significant downside risks to the recovery remained. The low-rates-for-longer pledge hit the USD sharply and sent gold prices soaring. But what the Fed didn’t say was that it was actively considering additional asset purchases, or QE3. True, Bernanke said it was still an option in his press briefing, but that doesn’t mean it’s close to being adopted yet. As such, the pronounced USD weakness following the Fed events may not be sustained. I would note that broad commodity indexes (CRB) and stocks did not express the same QE3-euphoria that FX did, with gold being the exception.
Bernanke will appear before the House Budget Committee on Thursday, Feb. 2. I would expect Republican members to grill him over any plans to further expand the Fed’s balance sheet with additional asset purchases, a major source of irritation to them. Bernanke will surely defend the Fed’s independence and its dual mandate, but in doing so, he may also indicate that QE3 is not currently under active consideration. If so, the USD could see a sharp rebound. This should not be the usual Fed appearance before a Congressional committee.

Key data and events next week

In addition to Monday’s EU Summit and Thursday’s Bernanke testimony, next week sees a number of key data points. Also, next week will see month-end portfolio hedging flows, some of which may have helped drive Friday’s USD slump. Given outsized gains in US stock/bond valuations relative to other G10 markets, we expect overall USD-selling to persist through Tuesday, other events being equal, typically culminating at the 1600GMT London fixing. In particular, our proprietary model suggests the strongest USD selling against CHF, CAD, AUD and JPY, with slightly less strong USD-sell signals against GBP and EUR.
On Wednesday, China will a release pair of critical manufacturing sector PMI’s, with the Jan. national PMI forecast to dip back into contractionary levels at 49.6 after 50.3. Later on Wednesday in the US, the ADP Jan. employment report will give us a first sense of how Friday’s US NFP may play out. Friday will also see non-manufacturing PMI’s out of China.

Inspiration for the text: chronic of Brian Dolan on Forex.com

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novembro 08, 2011

Aprendendo a investir...Professor: Warren Buffett.

Sempre ouvimos que um bom investimento é aquele que a gente compra barato e consegue vender supervalorizado. E quando paramos a pensar, faz um grande sentido. Mas, por incrível que pareça, nem todos pensam desta forma e acabam fugindo de bons investimentos quando estes estão baratos.
É este comportamento que vemos dos investidores quando a bolsa despenca e tudo fica barato. O que a maioria faz? Vendem suas posições, vão para aplicações mais "seguras" e esperam a bolsa subir, para ai sim comprar.
Pois ai vai uma lição do 3º homem mais rico do mundo: enquanto a maioria das bolsas mundiais sofrem diante dos cenários de crise, no terceiro trimestre do ano, Warren Buffett e seu fundo de investimentos Berkshire Hathaway  desembolsaram US$ 20,9 bilhões, maior valor para o período nos últimos 15 anos. Somente em ações, as aquisições somaram US$ 7 bilhões, quase o dobro dos US$ 3,6 bilhões investidos no segundo trimestre e oito vezes mais do que os aportes de US$ 835 milhões nos três primeiros meses do ano. Nesse período, Buffett também arrematou US$ 5 bilhões em papéis e garantias do Bank of America e adquiriu a Lubrizol por US$ 9 bilhões.
Pra quem não conhece Warren Buffett, basta uma rápida pesquisa na internet para conhece-lo. Avesso a unanimidade, autor de frases como: "Diversificação é uma proteção contra a ignorância e não faz muito sentido para aqueles que sabem o que estão fazendo" e a que mais gosto, "A maioria das pessoas se interessa por ações quando todo mundo está interessado. O momento de interessar-se é quando ninguém mais se interessa. Não se ganha dinheiro comprando o que é popular", Buffett sempre cultivou a imagem do tipo que anda com roupas amarfanhadas, vive em uma casa modesta e frequenta supermercados atrás de liquidações relâmpagos. O que de fato, representa 100% sua realidade.
Mas ao contrário do que muitos pensam, Buffett não age através de seu 6º sentido, como muitos acreditam. Ele é um investidor inteligente, com raro faro de oportunidade, sempre atento as melhores oportunidades, uma raposa na arte de ganhar dinheiro e obviamente um gênio da raça entre os homens de negócios.
Será que é tão difícil agir desta maneira? Vamos refletir um pouco e olhar nossas aplicações neste momento. Você esta comprado no que? A bolsas estão baratas, os imóveis caros. Os juros estão caindo, a inflação subindo. Qual você acha que seria o melhor investimento agora? Poupança? Ações? Imóveis?
        Claro que esta decisão cabe somente a quem conhece seu próprio risco, mas é o caso de se pensar: Buffett está errado?

outubro 26, 2011

CNI – Encontro Nacional da Indústria 2011

CNI – Encontro Nacional da Indústria 2011

Bom evento até agora, para se atualizar e debater. Promete muito.

Estou acompanhando.

Marcelo

junho 04, 2011

PIB 1T11

Daniel Passos Miraglia*

O crescimento de 4,2% no Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil no primeiro trimestre de 2011 em relação ao mesmo período de 2010 veio em linha com as expectativas do mercado e reforça a projeção de um crescimento acumulado no ano de 2011 entre 3,5% e 4%. O resultado do PIB no primeiro trimestre de 2011 ainda não reflete inteiramente as medidas de aperto monetário adotadas pelo BACEN desde o inicio de 2011. A alta da Selic, que saiu de 10,75% no inicio do ano para os atuais 12%, as medidas de restrição ao crédito e aumento do compulsório demoram algum tempo para aparecer com mais clareza nos números do PIB. Isso deverá ser verificado com mais intensidade no PIB do segundo e do terceiro trimestre do ano.

O BACEN tem sido eficiente na tarefa de trazer as expectativas de inflação para os próximos 12 meses de volta para o centro da meta que é de um IPCA de 4,5% ao ano. Apesar destas mesmas expectativas ainda estarem em 5%, elas vem caindo com consistência. Já existe, portanto, uma sinalização de que o pior do aperto monetário pode ter ficado para trás, restando talvez mais 0,25% ou 0,5% de alta na Selic até que o ciclo esteja completo. O grande risco para a inflação agora são os dissídios coletivos que ficam concentrados no segundo semestre do ano e que podem trazer um alto nível de indexação da inflação verificada nos últimos 12 meses. Os empresários não tem margem suficiente para absorver os aumentos que serão concedidos nos dissídios sem repassar isso aos preços finais e temos, portanto, um risco real de reindexação de preços e salários na economia brasileira.

É interessante notarmos que os níveis de crescimento do PIB verificados em 2010, de 7,5%, não são sustentáveis sem um aumento expressivo dos índices de inflação. Isso reforça a tese de que o crescimento potencial da economia brasileira ainda se encontra entre 4% e 5% ao ano. Para que o PIB potencial (taxa de crescimento sem inflação) do Brasil suba será necessário enfrentar com seriedade as reformas fiscal e tributária, pois isso aumentaria de forma significativa a produtividade da economia brasileira, possibilitando maior crescimento da oferta para suportar um incremento maior que 5% na demanda.

* Bacharel em Economia pela FEA-USP.Premiação: Excellence Prize de Economia USP 1994 - 1º prêmio conferido pelaFaculdade de Economia e Administração da USP por melhor tese de Bacharelado,com o Tema: "Plano Real: Origens e Perspectivas". Especialização emFinanças e Private Banking pela Euromoney Institute of Finance. Possui mais de18 anos de experiência profissional no mercado financeiro e 4 anos em cargos deliderança no setor real da economia. Trabalhou na Banespa S/A Corretora de Câmbiose Títulos (Economista); Lloyds Bank plc. (Divisão de Investimentos); BancoSafra S/A (Trader posição proprietária offshore, englobando investimentos nosEUA, Europa, Brasil, Rússia, Venezuela e México); Produtora O2 Filmes (Diretor/CFO);Estúdios Mega (Diretor/CFO); Banco Safra S/A (Tesouraria - Área de capitalpróprio do banco). Atualmente é Professor de Finanças, de Economia e de Matemáticae Estatística Aplicada, Consultor e Sócio da Eyesonfuture (Empresaespecializada em cenários e estratégias empresariais) e Wealth ManagementAdvisor.

maio 19, 2011

Zona do Euro sem Strauss-Kahn.

Quanto vi Dominique Strauss-Kahn, diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI) e possível candidato à presidência da França, sendo levado algemado pela polícia, foi embaraçosa e preocupante. Parecia até o Brasil. (Desculpem a piada. Aliás, alguém se lembra de alguma autoridade exposta presa e algemada aqui no Brasil?)
Mas vamos deixar a justiça o que é da justiça e esperar que o correto prevaleça. Mas, caso o Sr. Strauss-Kahn, profissional competente, seja inocentado, o incidente projetará uma longa sombra.
Quando Strauss-Kahnfoi indicado e nomeado como diretor-gerente do FMI, tive minhas dúvidas sobre a nomeação. Primeiro ponto por ser mais um francês no comando do FMI. Segundo, por sua origem vir da política. E terceiro, devido aos seus fundamentos econômicos. Pois bem, eu estava errado. Ele se revelou o homem certo no lugar certo na hora certa, ousando na tomada de decisões, um político eficaz e um economista competente. Essa combinação é muito rara. Provavelmente, nenhum dos candidatos em discussão se desincumbiria da missão como ele o fez durante a pior fase da turbulência econômica mundial e, depois, das crises financeiras na zona do euro.
Esperava-se Strauss-Kahn concorrendo à presidência da França e consequetemente, sua vitória. Reconhecidamente possuidor de recursos ausentes no atual presidente francês, Nicolas Sarkozy, Strauss-Kahn com seu peso intelectual e político aliado a sua credibilidade, principalmente perante as autoridades governamentais da principal potência europeia, Alemanha, traria uma real transformação na capacidade da zona do euro de administrar sua atual crise interna. Uma das poucas altas autoridades econômicas europeias a quem os dirigentes alemães, particularmente a chanceler Angela Merkel, davam atenção, Strauss-Kahn em momentos cruciais foi capaz de reunir os europeus, produzindo consenso até em um governo alemão dividido. Não consigo imaginar quem poderia substituí-lo.
Inevitavelmente, já há muita discussão sobre quem poderia substituir Strauss-Kahn no FMI. É fácil lembrar tecnocratas competentes em todo o mundo. É também possível pensar em personalidades politicamente eficazes. Ninguém combina essas facetas gêmeas como ele. Nosso ex-presidente do Bacen, Henrique Meirelles, já foi fortemente cogitado à função, mas a questão da nacionalidade também se coloca. Os europeus insistirão em que seja outro europeu, possivelmente Christine Lagarde, atual ministra das Finanças francesa e principal rival de Meirelles para o cargo. Para os países emergentes (Brasil), é fundamental que se tenha uma pessoa do calibre de Meirelles, respeitado pelo mercado, conhecido e reconhecido internacionalmente e competência técnica e política indiscutível. Mas, dado o papel central desempenhado pelo FMI agora na zona euro como fonte de financiamento é difícil imaginar que os europeus abririam mão de ter o controle do orgão, principalmente para os que antes eram seus devedores e agora são seus credores. Desconfio que os EUA os apoiariam, e, nesse caso, terão os votos necessários.

A queda de Strauss-Kahn acontece em um momento importante. O programa grego não funcionou como planejado e nada fazia crer que funcionaria ou funcionará. Portugal, com seu programa de € 78 bilhões, parece tanto ou mais provável que também falhe. A Espanha está longe de garantir irá conseguir administrar os ajustes que tem pela frente. Além disso, como revela o FMI em uma nova análise da conjuntura europeia, o extremamente alavancado sistema bancário da zona do euro permanece vulnerável. Recuperada mesmo, por enquanto, a Irlanda. Será?
Os fundamentos econômicos da crise são claros e conhecidos. Quando tudo funcionava, o mundo crescia e todos estavam felizes, empresas e países tomavam empréstimos em condições mais favoráveis do que nunca, se alavancavam, confiando em um período de crescimento longo e sem solavancos. Resultado?
A crise chegou, o crescimento acabou e...o dinheiro sumiu. A conta parou de bater, começou a ficar no vermelho, também chamado de déficits em conta corrente. Esses déficits, que em nada tinham a ver com déficits fiscais, como diziam os alemães, foram o principal indicador da crise. As contrapartidas domésticas desses déficits externos poderiam ser enormes déficits fiscais (como na Grécia), enormes déficits financeiros privados (como na Irlanda e na Espanha) ou uma combinação dos dois (como em Portugal).
De fato, agora sabemos que a distinção entre déficits e endividamento privados e entre déficits e endividamento públicos é muito menos absoluta do que no entendimento dos sacerdotes fiscais: dívida privada torna-se dívida pública e déficits privados tornam-se déficits públicos muito rapidamente. Em meio a uma crise, grandes déficits externos também resultam em "paradas súbitas" no afluxo de financiamento externo, daí a necessidade de suporte oficial para financiar os déficits em conta corrente e fiscal em curso e a fuga de capitais. (Te lembra algum país tropital, ali na América do Sul?))
Um país com um setor privado sobrecarregado de dívidas que esteja também tentando reduzir seu enorme déficit fiscal estrutural precisa gerar uma melhoria compensadora em sua conta corrente. Isso é uma questão de lógica. Consideremos Portugal. Segundo o FMI, o país teve um déficit em conta corrente equivalente a 10% do Produto Interno Bruto (PIB) no ano passado, um déficit fiscal de 7% do PIB e, portanto, um déficit implícito do setor privado igual a 3% do PIB. Para que o déficit orçamentário possa ser melhorado sem elevar o déficit do setor privado, a conta corrente precisa melhorar substancialmente. Mas isso implica aumento de competitividade. O desafio de competitividade com que se confrontam esses países é muito maior do que o enfrentado pela Alemanha no fim dos anos 1990.
Independentemente do ajuste financeiro, alguém precisa também arcar com os prejuízos decorrentes de incobráveis concessões e tomadas de empréstimos passados. Em seu descortino, a zona do euro decidiu que o prejuízo dos credores do setor privado deve ser socializado e que o ônus recaia sobre os países deficitários. Os contribuintes, então, sofrerão, primeiro recessão, e depois, anos de austeridade fiscal. A justificativa para tudo isso é a visão fortemente assumida, particularmente pelo Banco Central Europeu (BCE), de que a zona do euro não pode dar conta de eventuais calotes, seja no caso de empréstimos a bancos ou de empréstimos a governos. Mais uma vez, dissolve-se a distinção entre dívida pública e privada.
Mas o problema com a estratégia de impor o ônus aos contribuintes em países tomadores de empréstimos é que provavelmente não dará certo. Como uma proporção cada vez maior dos financiamentos acaba em fontes oficiais, é provável que elas acabem arcando com os custos politicamente explosivos quando as dívidas são perdoadas. Alguma "participação do setor privado", ou pelo menos alongamentos de prazos de vencimento serão também necessários. Assim, também precisará haver cancelamento de empréstimos a bancos falidos e subsequente recapitalização de instituições financeiras abaladas.
Esse tipo de crise é de difícil solução. Como deveria ser financiado o ajuste? Quem deveria arcar com os prejuízos? Como deveria ser minimizado o pânico? Os desafios são enormes. A estratégia atual exige cada vez maior financiamento oficial por períodos cada vez mais amplos. Será viável? Se não, alguém precisará repensar a questão. Sem Strauss-Kahn, eu me pergunto, quem agora será capaz de apontar o caminho.

abril 12, 2011

O BACEN E O CÂMBIO

Muitas pessoas me perguntam para que serve o Banco Central? E para quem?

Acho que a primeira coisa a ser explicada é para que e para quem serve o Bacen aqui no Brasil.
     Imagine o cenário onde uma empresa cresce a tal ponto que é obrigada a contratar uma consultoria financeira, como a MSF Economic Consulting, para gerir os ganhos e gastos da sua empresa, de forma racional, mantendo a estabilidade da empresa, mesmo em época de turbulência.
Esta é uma visão microeconômica do papel do Bacen na economia. Porém, macroeconomicamente, o papel da MSF EC é desempenhado pelo Bacen, a empresa é a economia do país e os ganhos e gastos são os valores arrecadados através de operações de venda de títulos e câmbio, compulsórios, repasses da União e orçamento aprovado no congresso e autorizado pelo Presidente da Repúlica, atualmente Presidenta.
O Banco Central é uma autarquia Federal integrante do Sistema Financeiro Nacional, vinculada ao Ministério da Fazenda do Brasil, atualmente presidido Alexandre Antonio Tombini, economista e funcionário de carreira do próprio Bacen.
O Bacen foi criado em 1964, herdando os serviços anteriormente prestados pela Superintendência da Moeda e do Crédito (SUMOC), Banco do Brasil (BB) e o Tesouro Nacional, e ganhou “autonomia” a partir de 1988 através da Constituição Federal. Seu principal objetivo é administrar a política econômica, garantindo estabilidade financeira e o poder de compra da moeda. Também é de sua responsabilidade definir as políticas monetárias e regular e fiscalizar o sistema financeiro local.
O Bacen possui inumeras ferramentas para manter o equilibrio dentro de um mercado tão complexo como o Brasileiro. Aproveitando que o tema câmbio esta em destaque, devido a crescente valorização do Real frente ao Dolar, achei interessante publicar entrevista do gerente técnico regional da área de câmbio e capitais internacionais do Banco Central, com 30 anos de experiênica, e atual consultor de câmbio e capitais internacionais da Advanced Corretora de Câmbio Ltda, Sr. João Carlos Gimenez, concedida ao Site Câmbio Market Now.

Fonte: Site Câmbio Market Now. - Periódico Semanal – Ano II – SP – Abril de 2011 – Artigo Especial (http://wiki.advfn.com)

Site CMN – Quais as principais ferramentas disponíveis pelo BC para as operações de câmbio e como elas funcionam?

JC - O Banco Central é o formulador e executor das políticas monetária e cambial do País. Considerando o sistema atual de livre flutuação da taxa de câmbio, pode-se afirmar que a política cambial hoje é tratada no contexto da política monetária como um todo.
Diferentemente do passado, onde prevaleciam os  rígidos controles cambiais e os  regimes de administração e monitoramento da taxa de câmbio, tem procurado o Banco Central simplificar e flexibilizar regras e procedimentos de natureza cambial, buscando a modernização da regulamentação de câmbio, visando sua equiparação ao que se pratica nos países desenvolvidos.
Num regime de flutuação da taxa de câmbio, não se admite, como regra, restrições para troca de moeda estrangeira por moeda nacional e vice-versa. É forçoso reconhecer que o Banco Central brasileiro vem atuando fortemente nos últimos anos no sentido de eliminar entraves e restrições impostas no passado nas operações cambiais. Destacam-se nesse particular, a unificação do mercado de câmbio em 2005, o fim do controle cambial nas exportações e importações brasileiras, a possibilidade do exportador manter seus recursos no exterior, o uso dos reais nas transações internacionais, etc.
É lícito afirmar, portanto, que a maior ferramenta que o BC hoje dispõe é o regime cambial vigente, onde é possível caminhar no sentido da modernização cambial, o que no final resulta em redução do custo de transação, maior inserção das empresas no cenário internacional, aumento da credibilidade do País no mundo. Isto nós já estamos podendo ver e sentir no dia a dia, com o fortalecimento da nossa economia, com constantes reduções do risco País pelas agências internacionais de rating. 
Ressalto finalmente a criação pelo Bacen do regime de câmbio SIMPLIM e SIMPLEX que consiste em uma significativa facilitação do processo para contratação de câmbio tanto pelo importador pelo exportador, dentro do limite de 50 mil dólares por operação. 
Tal contratação que era restrita aos bancos autorizados a operar no cambio foi estendida aos corretores de cambio que ate entao só poderiam fazer a intermediação da operação.Essa medida, de pronto ofereceu uma sensível redução de custos operacionais tanto pela simplificação que oferece como pela ampliação dos players do mercado, estes últimos, as corretoras, direcionado seu foco principalmente para os pequenos e medios importadores.

Site CMN – Onde o BC poderá ajudar ou orientar uma empresa que pretende iniciar a importação ou exportação de algum produto?

JC - Importante, primeiramente, entender como funciona o comércio exterior brasileiro, que é regulamentado e monitorado por basicamente três órgãos governamentais, atuantes nos seguintes níveis

.MDCI, responsável pelos aspectos comerciais .
.RFB, responsável pelos aspectos aduaneiros .
.BCB, responsável pelos aspectos cambiais.

Como se observa, o BCB atua na regulamentação dos pagamentos e recebimentos das nossas importações e exportações, respectivamente, não tratando de questões comerciais, o que me parece é o caso.
       O MDIC tem em sua página orientações específicas para empresas que estão iniciando no comércio internacional, me parecendo ser mais apropriado buscar auxílio nesse sentido junto ao mesmo. O BCB pode especificamente orientar as empresas como efetuar ou receber pagamentos internacionais. Nessa linha a regulamentação do BCB hoje disponível em sua página, no RMCCI oferece orientações bastante claras que podem ajudar as empresas nesse particular. Recomendo consultá-las.

Site CMN – Em relação as recentes mudanças em nossa política cambial, quais você acredita ser mais significativa para o setor e por que?

         JC - Sem sombra de dúvida, a flexibilização de regras e procedimentos cambiais. Só para se ter uma idéia, até 2006 todo o exportador e importador era obrigado a vincular cada contrato de câmbio a um registro de exportação e importação. Considerando a grande quantidade de operações existentes diariamente, os custos de transação eram enormes, além das estruturas administrativas que cada empresa tinha que ter para executar essas tarefas.
       Além disso, como o BC cobrava multas por meio de processos administrativos pelos descumprimentos detectados, as empresas também tinham que ter a seu dispor permanentemente escritórios de advocacia ou deparamentos jurídicos para acompanhar esses processos, também com altíssimos custos.
       A simplificação cambial conduzida pelo BCB eliminou tudo isso, com benefício final às empresas nacionais, contribuindo para o aumento da competitividade no setor externo. Isso sem falar na agilidade e maior rapidez no trâmite dos negócios, que não mais dependem de interferência governamental, prévia ou posterior.
       Importante ressaltar que isso não eliminou responsabilidade de outras   naturezas, especialmente de ordem tributária, legitimidade e legalidade da transação com o exterior e quanto à identificação do cliente e  da origem lícita dos recursos.
Esses são apenas alguns exemplos, muitas outras simplificações foram realizadas, com os consequentes benefícios

Site CMN – Como você imagina o cenário de câmbio brasileiro nos próximos 5 anos?

          JC - Imagino a continuidade do regime de câmbio flutuante, não obstante os desequilíbrios nos fluxos de capitais que estamos assistindo atualmente, que têm afetado as políticas econômicas de todos os países emergentes.
        Imagino também que o País estará com o setor externo cada vez mais consolidado, com o País cada vez mais   inserido no cenário internacional, com as regras cambiais cada dia mais próximas do que se pratica no mundo, ou seja, com plena liberdade para ingresso e saída de moeda estrangeira.
       Não se pode esquecer, tamém,  que e real é uma moeda que vem cada dia mais tendo aumentando seu grau de aceitabilidade, quem sabe nos próximos cinco anos tenhamos uma moeda com aceitação ainda maior no mundo, preparando para alcançar um nível maior de conversibilidade. Este é um sonho que acredito o País e todos nós possamos ter.